quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Assassinatos de afrorreligiosos no Pará vão ser apurados

Governador do Pará assina decreto   Nº 1.690, DE 3 DE FEVEREIRO DE 2017, que trata da “Criação e constituição do Grupo de Trabalho - GT com a missão de levantar assassinatos e atos violentos cometidos contra pessoas integrantes de religião de matriz africana, projetando ações de segurança e defesa".

Vejam a composição que saiu no Diário Oficial:

Art. 2º - Constituir o Grupo de Trabalho – GT, que alude o artigo anterior dos seguintes membros:
l – Um (1) representante do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará/CEDENPA, que será o Coordenador Geral;
ll – Um (1) representante da Secretaria de Estado de Segurança e Defesa Social/SEGUP;
lll – Um (1) representante da Polícia Militar/PMPA;
lV – Um (1) representante da Polícia Civil/PCPA;
V – Um (1) representante da Superintendência do Sistema Penal;
Vl – Um (1) representante da Ouvidoria do SIEDS;
Vll – Um (1) representante da Sociedade Paraense da Defesa dos Direitos Humanos – SPDDH;
Vlll – Um (1) representante da Ordem dos Advogados do Brasil/Seção Pará;
lX – Quatro (4) representantes indicados pelo Movimento de Afro Religiosos;
X – Um (1) representante do Ministério Público Estadual, desde que manifestado interesse da instituição; e,
Xl – Um (1) representante da Defensoria Pública, desde que
manifestado interesse da Instituição.
Vamos acompanhar.

Religião é usada para transgressão a direitos humanos, cita professor da Fateo

Prof. Schutz abordou "Religião e Direitos Humanos" em aula magna (Foto Malu Marcoccia)
Quando se olha a religião apenas pela lente da inspiração divina, o mundo que se vê é um reflexo alterado por esse dogmatismo. A religião deve ser entendida como expressão humana. Como tal, deve buscar a humanização em suas relações.
“O religioso tenta justificar seus atos dizendo-se inspirado pelo Divino. Em nome da religião, assistimos tantos flagrantes de agressão e de solapamento dos direitos humanos”, afirmou professor Jorge Schutz Dias na aula magna de Integralização de Créditos EAD da Faculdade de Teologia, na tarde de 6 de fevereiro.
Ele abordou o tema da “Religião e Direitos Humanos” e exemplificou com comunidades religiosas intolerantes à questão de gênero e sexualidade, que defendem aumento da punição a presidiários e mesmo a pena de morte, enquanto outras desqualificam religiões visando somente ao expansionismo territorial. Até a mutilação genital feminina, que aleija 150 milhões de mulheres no mundo, é feita em nome da religião.
“É difícil tratar de direitos humanos nas comunidades de fé quando dentro da própria religião há ações de violência, seja física, pela dominação por imposição, seja simbólica, ao se destruir imagens que exprimem uma crença”, disse o palestrante, enfatizando que o compromisso básico da igreja deve ser com a preservação da vida. E vida, a seu ver, passa pelo livre arbítrio.

Liberdade, base dos direitos
Professor Schutz buscou na história passagens como da Revolução Francesa, que resultou na Carta Magna do país em 1971, para sublinhar os pilares dos direitos do homem. Aquela Constituição já contemplava a liberdade, a segurança, o direito à propriedade e a resistência à opressão, todos de inspiração religiosa e que mais tarde embasaram também a Declaração dos Direitos Humanos da ONU, em 1948. Mas as igrejas desviaram-se de vários desses princípios ao longo de suas trajetórias.
“Em quantos cultos um pregador enfatiza a passagem em que Javé manda dizimar uma cidade? Esse pregador diz que isso é feito para eliminar pecadores. É difícil engolir essa narrativa. Muitas religiões passaram pela mortandade para seu projeto de hegemonia e de expansão física”, lamentou o palestrante, citando episódios de matança em nome da religião, como as facções radicais islâmicas aramadas. Lembrou, inclusive, que a palavra “facção” tem inspiração religiosa naqueles que em nome de Deus buscavam supremacia, por isso hoje a palavra dá nome a grupos violentos que agem nas cadeias brasileiras.
Professor Jorge Schutz culpa a igreja, e não o governo, pelo estágio da violência vivida no Brasil, entendendo que é papel da religião educar para o direito à liberdade e suas implicações. “Faço um mea culpa. Corpos decapitados e mutilados são símbolos de que em algum momento faltou nas igrejas o discurso da liberdade, cujo limite é que não fira o próximo”, citou.
Também lamentou a polaridade de hoje no campo das opiniões, em que se deve estar de um lado ou do outro, seja na política ou no comportamento. “Liberdade e vida se comungam. A Declaração Francesa já falava que ninguém deve ser incomodado por suas opiniões”, destacou na aula inaugural de 2017, transmitida ao vivo para todos os polos de Educação a Distância Metodista.

Fonte: UMESP

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Comissão de Direitos Humanos da Alepa cobra políticas efetivas no combate à intolerância religiosa

Um Estado laico defende a liberdade religiosa a todos os cidadãos, mas os relatos dos sacerdotes de religiões de matriz africana no Pará mostram uma realidade bem diferente. Vítimas de racismo religioso, muitos são ameaçados, hostilizados, segregados e mortos. Em 2016, foram sete casos, por isso, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), presidida pelo deputado Carlos Borbalo, levou ao auditório João Batista diversas autoridades e representantes das religiões afro no Pará para cobrar do Estado políticas públicas que combatam, efetivamente, a descriminação religiosa.
Os relatos são muitos, Mameto Naguetu (Oneide Monteiro) disse que as ações preconceituosas acabam sendo minimizadas pelas autoridades policiais como brigas de vizinhos. “Policial bate no meu terreiro e me chama de marginal, e nós não somos, nós somos tão sacerdotes quanto um pastor e um padre, temos direito, vivemos em um país laico”, disse Naguetu, que é membro do Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa.

Religões se unem contra a intolerância

SINCRETISMO: Ato em praça público reúne adeptos de religiões diferentes



Dezenas de pessoas, entre candomblecistas, umbandistas, hare krishnas e de outras religiões participaram, na manhã de ontem, na Praça Batista Campos, do 8º Ato Contra a Intolerância Religiosa. A atividade objetivou chamar a atenção da sociedade para a necessidade do respeito à diversidade religiosa.
Candomblecista, Mam’eto Nangetu falou sobre a finalidade do ato. “Nós não queremos ser tolerados, nós queremos ser respeitados. Aqui no Estado do Pará, por exemplo, ano passado nós tivemos vários assassinatos por intolerância e desrespeito às nossas tradições. Nós queremos mostrar esta diversidade para que as pessoas olhem e percebam que só unidas nós somos fortes.


Fonte (texto e foto): ORM News

sábado, 21 de janeiro de 2017

A diversidade religiosa numa história

Em virtude do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, publicamos a história do surgimento da diversidade religiosa

Pouco tempo depois do início de tudo, uma mulher de nome HUMANIDADE, mas que há bastante tempo, sem saber precisar os motivos, permitia que lhe chamassem de DIVINDADE, como se fosse um codinome que lhe desse mais autoridade ou charme, muito humilde, sem paradeiro definido e de origem ignorada, guardava no ventre a expectativa de vida e na memória a explicação de todos os mistérios do mundo.
Aquela barriga imensa, a aparente situação vulnerável e a curiosidade de saber os porquês da vida atraíram a solidariedade de uma família que providenciou os cuidados necessários para acompanhar a gravidez. O sobrenome da família era SOCIEDADE, uma família comum, com seus altos e baixos, amores e conflitos, refeições coletivas e azias individuais.
Não sabemos se por agradecimento ou pagamento, misericórdia ou altivez, desespero ou segurança, a mulher grávida decidira no seu coração entregar o bebê para aquela família logo que viesse ao mundo e, também, revelar os tão comentados mistérios do mundo.
Os dias passavam lento e sem calendário ainda. Sucedeu que numa madrugada gélida e chuvosa, quando o frio extremo fez aumentar a sonolência, deixando todos como que entorpecidos, chegou a hora do parto. E a mulher grávida, numa agonia, entre dores e expressões ofegantes, sem que ninguém ouvisse seus gritos abafados pelo som de chuva, deu a luz, mas, como uma mártir, na solidão do seu heroísmo, não resistiu e morreu.
Somente quando as primeiras luzes tímidas do sol forçaram entrada pelas frestas da casa, a família anfitriã conseguiu despertar. Quando ainda ruminava seu torpor, foi tomada numa síncope de remorso por dormir tão profundo a ponto de não assistir em nenhum momento a mulher prenha que abrigava em seu lar. Logo, em sincronia, a família deu um salto e voou para o leito, vindo a deparar-se com um corpo inerte e três valentes meninas gêmeas chorando quase sem forças entre cordões e lençóis.
"Então era por isso aquele barrigão", foi o primeiro pensamento silencioso diante da tripla surpresa das gêmeas. O segundo, diante da mãe pálida de morte, foi "e agora como saberemos o que queríamos saber sobre a vida, o mundo..?". Após as devidas providências fúnebres, tratou-se de dar nomes para as três gêmeas, que passaram a se chamar , CRENÇA e RELIGIÃO.
As três tiveram a mesma criação. Ganhavam brinquedos iguais nos aniversários, mudando apenas as cores, demonstravam apego e defesa umas das outras, mas, mesmo assim, aqui e acolá, se engalfinhavam por trivialidades, coisas de criança.
A família cuidadora se esforçava sobremaneira para a manutenção das trigêmeas. Carinho e repreensão na medida certa, orientações e pequenos puxões de orelhas ao sabor das peraltices e tolices que as meninas aprontavam... e como aprontavam.
Veio a adolescência, as sandices, os namoros, as impaciências, os desejos e as rebeldias. Vontade de transformar o mundo misturada com a preguiça de arrumar sua própria gaveta. Mas todos esses ingredientes da juventude revelavam à contra luz uma marca hereditária de ternura e o comprometimento com o bem, atributos ainda não compreendidos como herança materna.
Demorou muito, mas muito mesmo, para a família SOCIEDADE entender que estavam aprendendo com as maninhas , CRENÇA e RELIGIÃO mais que as ensinando. Claro, as revelações se dão lentamente, caso contrário, podemos não suportar. É como contemplar a beleza das borboletas. A aproximação tem que ser passo a passo, diminuindo a respiração, cuidando de gesticular menos e dilatar a pupila mais... até o vermos cada tom de cor das asas e sua abertura magistral que quase forma um sorriso de permissão para nosso olhar.
Mesmo que tardiamente, a família SOCIEDADE ainda desfrutou da sabedoria que emanava não de discursos, mas das ações daquelas meninas. Até que elas cresceram e se emanciparam. Cada uma seguiu um rumo.
Um dia, e isso foi logo após inventarem o calendário, agora já mulheres formadas, , CRENÇA e RELIGIÃO retornam de surpresa à casa onde foram criadas pela família SOCIEDADE, levando consigo sua prole.
E sabe aquela história da grande probabilidade de pessoas gêmeas gerarem  gêmeos? Foi confirmada em cem porcento. As trigêmeas encheram a casa de contentamento e trabalheira. E, após a apresentação dos bebês e colocação do papo em dia, voltaram para seus caminhos.
E a parição de gêmeos continua à cada gestação. Até os dias de hoje já foram tantas as linhagens crescidas em progressão geométrica que tornaram-se incontáveis, com diversos nomes, comportamentos e tamanhos.
As descendências herdeiras daquelas três gêmeas se espalharam pela terra, conquistaram status e poder, tomaram pra si o direito de ordenar os calendários, posteriormente, de compasso não mão, traçaram seus limites territoriais, ajudaram a criar povos para habitarem dentro destas linhas imaginárias, inflamaram os corações de exércitos para justificar que deveriam matar e morrer na defesa dos calendários e das fronteiras que haviam sido inventados, escolheram as cores das bandeiras, apontando para o além, motivando os anseios de poder e de potência.
Mas esqueceram que tem a mesma origem na matriarca fundadora. Por isso, temos que recontar esta história.

Texto: Tony Vilhena, cientista social e mestre em ciências da religião.