Construção é filial da Casa do Caboclo, entidade fundada em 1975. Governo afirma que área pública sofria 'parcelamento irregular'.
Por Marília Marques e Letícia de Oliveira, G1 DF e TV Globo
Membros da Casa do Caboclo, no Lago Norte, cantam e dançam ao redor de construção derrubada pelo DF Legal — Foto: TV Globo/Reprodução
Após a derrubada da construção de uma filial do terreiro de candomblé Caboclo Boiadeiro – o centro mais antigo do Distrito Federal, fundado em 1975 – a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) decidiu recorrer do caso por entender que a destruição do imóvel pelo governo foi um "ato de intolerância religiosa".
A ação que demoliu a casa de matriz africana no Lago Norte foi organizada pelo DF Legal – antiga Agência de Fiscalização (Agefis) – na segunda-feira (20), mesma semana em que o novo órgão começou a funcionar.
Segundo a presidente da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB-DF, Patrícia Zapponi, "louças, imagens e itens sagrados foram destruídos".
"Nosso sagrado estava ali. Não podemos tirar nada, arrebentaram a cerca e, sumariamente, derrubaram tudo", afirma Patrícia.
Os membros da religião disseram ainda que a direção do centro espírita não foi notificada. Em nota, o DF Legal informa que a obra demolida era "recente e irregular". A secretaria disse ainda que o espaço estava "sem identificação e tratava-se de parcelamento irregular de área pública".
"O imóvel não possuía características de templo religioso e, sim, de moradia", diz o comunicado enviado à reportagem. Além disso, o GDF afirma que remoções em locais públicos "não necessitam de prévia notificação".
O local atendia cerca de 100 pessoas por sessão, mas, no momento da derrubada, por volta de 7h, não havia frequentadores no local.
Denúncia
Em março, o governo recebeu uma denúncia de desmatamento em área de preservação ambiental no local onde a filial do terreiro estava construída. Na época, a Agência de Desenvolvimento (Terracap) identificou a construção e pediu uma atitude do DF legal.
Os coordenadores do terreiro de candomblé entraram com um pedido de regularização da área no ano passado, junto à Secretaria de Meio Ambiente e à Agricultura do DF, porque o lote fica próximo ao Córrego do Urubu.
"Foi um ato de intolerância religiosa. Têm várias construções à nossa volta, nenhuma foi derrubada, só a nossa."
Mesmo com os documento em mãos, os fiscais "não pediram para ver", afirma o líder Américo Neves Filho, conhecido como Pai Lilico. "Arrebentaram a cerca e começaram a derrubar a casa do lado de fora, sem procurar saber o que era".
10 anos sem regularização
De acordo com o GDF, as áreas ocupadas no DF até 31 de dezembro de 2006 são passíveis de regularização. Nos últimos 10 anos, no entanto, nenhuma área de terreiro foi regularizada em Brasília.
Sobre o assunto, o governo aponta que "é compromisso da atual gestão acelerar o processo de regularização das áreas de terreiro até o final do ano".
Há um ano atrás, 15 de maio de 2018, por volta das 19h, participávamos de um carnaval diferente. A praça de folia era a portaria de uma capela mortuária na Av. Conselheiro Furtado, em Belém/PA. Sim, estávamos lá atendendo ao convite do entusiasta professor de arte e ativista político-cultural Arthur Leandro, também conhecido pelo seu nome afro-religioso de Tata Kinamboji, que em mais uma de suas surpresas partira pela manhã "de volta ao seio sagrado de Nzambi" (aprendi dizer isso naquele dia).
Entre batuques, palmas e canções, aquele antivelório expressava muito de quem foi e quem é, pois está conosco sempre, Arthur Leandro. Iconoclasta, irreverente e impactante. Um convite para o estranhamento daquilo tudo que parece habitual ou adequado nos padrões da sociedade branca-cristã-heteronormativa.
Ao lembrar que, anos antes, uma de suas intervenções artísticas foi publicar a notícia de sua morte no obituário de um grande jornal da cidade, denunciando, assim, que a imprensa não tem compromisso com a verdade e sim com o quanto recebe, revelo que ficou em mim uma expectativa de que aquilo tudo era mais um de seus atos poéticos e políticos. Imaginei ele postando depois freneticamente nas redes sociais algo assim "como podemos nos reunir em um velório, mesmo diante de nossa diversidade e agendas tão apertadas, e não conseguimos nos juntar pra ter mais força pra combater nossos inimigos comuns: os racistas, os fascistas e uma cambada de filha da puta que nos perseguem todos os dias...".
Passou um ano e sua audácia nos faz falta. Mas estamos aqui, Tata. São tempos absurdos, mas a luta segue. Seguem também conosco seus ensinamentos e destemor.
Queria postar aqui uma foto tirada nas ladeiras do Pelourinho, em Salvador, durante o Fórum Social Mundial do ano passado, quando Giovana, eu e o Arthur nos encontramos. Ele ia zimbado na cadeira de rodas elétricas por aquelas ladeiras de pedras. Mas a foto perdeu-se nas "nuvens" deste céu louco digital. Mas, mantenho a homenagem com esta foto mais formal de um grande dia. O dia que fomos convidados para palestrarmos na criação da Comissão de Liberdade Religiosa da Assembleia Legislativa do Pará.
O evento será realizado em Belém/PA, na Universidade Federal do Pará - Campus do Guamá, de 15 a 17 de maio de 2019.
O presente Simpósio, ao considerar como um processo histórico continuum as singulares experiências religiosas da Panamazônia, tem como finalidade os seguintes pontos:
- estimular reflexões e debates sobre as práticas religiosas dos sujeitos amazônicos entre profissionais, pesquisadores e estudantes;
- compartilhamento e discussão ampla dos resultados de pesquisas finalizadas ou em andamento; proporcionar intercâmbio e estreitamento dos laços entre pesquisadores, profissionais e comunidade acadêmica a partir da afinidade e proximidade na produção do conhecimento científico;
- possibilitar visibilidade às pesquisas e ações interdisciplinares implementadas pelos pesquisadores e instituições envolvidas;
- produção de e-book como resultado das conferências, mesas e cinco representantes dos GTs; constituir uma REDE de pesquisadores em torno do tema Religiosidades na Panamazônia.
Para maiores informações, acesse o sítio eletrônico:
- Ouvintes podem se inscrever até o dia 14 de maio de 2019. - A data limite para submissão de propostas de comunicação nos Grupos Temáticos é de 05 de maio de 2019. A data prevista para divulgação das comunicações escolhidas é de 13 de maio de 2019.
A Senso é uma revista bimestral voltada à temática do senso religioso contemporâneo sob o olhar de múltiplas áreas do saber, tendo como referência fundamental as Ciências da Religião, com o intuito de trazer ao público um debate de alto nível e que ajude as pessoas a compreender as diversas formas de crer e não crer e, dessa forma, construir pontes de diálogo, superação de intolerâncias e construção de uma cultura de paz.
A Senso é uma revista colaborativa e de acesso gratuito. É construída por intelectuais que não se prendem nos gabinetes e falam da realidade como se estivessem fora dela. As colaboradoras e colaboradores, além de sólida formação acadêmica, nas melhores universidades do país, são também pessoas que militam em torno das causas da diversidade religiosa, estado laico, superação das intolerâncias e direitos humanos.
Ela quer trazer ao público os grandes debates em torno das religiões e das culturas, sem, no entanto, usar de linguagem altamente especializada.
A cada número, traremos aos nossos leitores um debate amplo sobre temáticas culturais ligadas às religiões, de maneira a ajudar as pessoas a compreenderem as diversas formas de ser e significar a vida humana.
Nossa linguagem visual quer auxiliar o leitor a imergir nas diversas culturas e, assim, fazer, também ,uma experiência estética das diversas religiosidades e sensos religiosos da atualidade.
A senso quer sair do lugar comum que apenas afirma que religião não se discute, para visibilizar que as formas de crer e não crer são muito diversas. Queremos promover diálogos e encontros, diferentemente dos atuais meios de comunicação que abordam religiões de maneira simplista, pouco contribuindo para o reconhecimento dos diversos sensos religiosos.
Sair do senso comum para compreender o senso religioso: essa é nossa missão.
Tabata Tesser e Angelica Tostes, para Carta Capital, preparam lista imperdível de mulheres que são referências, vozes de fé e resistência contra as opressões de gênero e as injustiças sociais.
A intensa visibilidade de grupos evangélicos no Brasil do tempo presente, especialmente neste 2019 em que ocupam espaços no governo federal, tem causado incômodo em vários grupos pertencentes ao próprio segmento religioso.
Quem está em evidência é fonte de várias controvérsias: cruzadas religiosas com fixação na moralidade sexual conservadora, lideranças agressivas, promotoras de intolerância, práticas políticas reacionárias, fisiológicas e corporativistas, ocupantes de cargos públicos que não só demonstram limitações e despreparo, mas ganham destaque por declarações que são disparates incompatíveis com a função assumida.
Grupos evangélicos que não compactuam com tais posturas se indignam e sentem-se injustiçados com a imagem negativa construída predominante em torno deste segmento religioso.
Questiona-se a homogeneização no tratamento do grupo como “os” evangélicos. Discute-se ainda o porquê das alternativas a este tipo de visão religiosa serem invisibilizadas e silenciadas nos espaços públicos.
Um dos caminhos para a superação desta questão é um mergulho na memória. Ela é capaz de ressuscitar esperanças mortas e subverter o caos, dizia o teólogo de origem presbiteriana Rubem Alves.
Erasmo Braga, um pioneiro
Podemos começar com a evocação da Avenida Erasmo Braga, um espaço importante do centro da cidade do Rio de Janeiro, que tem o nome de um líder evangélico.
Nascido em 1877 e criado na Igreja Presbiteriana, Erasmo Braga decidiu estudar Teologia aos 16 anos. Tornou-se pastor e professor. Imerso em causas sociais, cobriu lacunas no ensino primário e no secundário com aulas de Química, História e Música. Atuava como jornalista e ajudou a fundar, em 1899, a Academia Paulista de Letras.
Em 1903, Braga associou-se na criação da Sociedade Científica de São Paulo. Nos anos 1910, produziu a obra que lhe trouxe notoriedade no País: o famoso conjunto de livros para as quartas séries primárias, intitulados “Série Braga”. Em 1930, o pastor participou da comissão que assessorou o governo brasileiro na reforma educacional. Seu nome foi dado a escolas e institutos culturais espalhados pelo Brasil.
Educação sem discriminação
Sim, os evangélicos tiveram e ainda têm um papel destacado no processo educacional brasileiro. Presbiterianos, batistas e metodistas, com as escolas que fundaram na passagem do século XIX para o XX, introduziram no Brasil a coeducação, contra a tradição de separação rigorosa de sexos nas aulas.
E mais: o valor da educação do sexo feminino, em contraposição ao preconceito à formação das mulheres, a inovação de currículos, com ênfase na dimensão científica, contra a falta de experimentação em laboratórios dos currículos clássicos, o princípio de liberdade de religião nas escolas e contra a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas, a compreensão e a ternura nas relações entre professores-alunos, contra o autoritarismo da educação tradicionalista.
Com este projeto educacional, os colégios e universidades evangélicas atraíram as classes alta e média do País. A população empobrecida era atendida nas escolas paroquiais.
Nada relacionado ao que evangélicos em evidência no atual governo declaram projetar para a educação no País hoje. Um retrocesso incompatível com a memória da presença evangélica na educação.
Braga ganhou reconhecimento por ir ainda além. Ele tinha consciência de que tanto o individualismo quanto o sectarismo, marcas da maioria das igrejas brasileiras, são um problema para a relação com a sociedade.
Ele condenava o “eclesiocentrismo” (colocar as igrejas como a razão de ser da fé), que leva ao isolamento da religião. Conclamou as igrejas para superarem isto, relacionando-se entre si e com a sociedade, por meio da prestação de serviços às comunidades, como um testemunho de Cristo.
CEB
Foi nesta perspectiva que Braga, a partir de várias iniciativas de unidade e cooperação, idealizou a criação da Confederação Evangélica do Brasil. Sua morte prematura, aos 55 anos, em 1932, não lhe permitiu presenciar a fundação dela, em 1934.
A CEB tornou-se a principal organização dos evangélicos brasileiros por várias décadas, com desenvolvimento de projetos em várias áreas da vida interna das igrejas e da vida pública do País. A sede foi estabelecida na avenida que ganhou o nome de Erasmo Braga, no nº 277, 5º andar.
A história da CEB foi brutalmente interrompida com a perseguição aos grupos ecumênicos imposta pela ditadura.
Braga tornou-se um dos mais destacados líderes evangélicos do seu tempo, por sua capacidade de dialogar e respeitar as diferenças.
Júlio Andrade Ferreira, autor de sua biografia, escreveu que Braga viveu uma “era caótica” marcada por problemas de ordem teológica, intelectual e política e, por isto, sua vida “deveria ser uma inspiração”.
E ela o tem sido para muitas lideranças evangélicas espalhadas Brasil afora, que não têm visibilidade midiática ou evidência na política. Não cabem neste parágrafo final os tantos nomes dos “Erasmo Braga” de hoje.
É gente que continua no propósito de superar o eclesiocentrismo e tornar relevante a religião que serve, dialoga e respeita as diferenças em busca de justiça e paz. Sim, estes evangélicos existem, é só não procurar nos programas de tevê ou no governo federal.
Como as seitas e cultos sinistros se infiltraram novamente na cultura pop!
POR GUS FIAUX → Você já deve ter percebido que, nos últimos anos, um tema bem curioso voltou com tudo para os cinemas – especialmente se é fã de filmes de terror. Longas como Hereditário, Mandy, O Convite, A Casa do Diabo e Kill List têm todos algo em comum: a presença de seitas e cultos religiosos sombrios.
Mas por que diabos esse tema está tão presente no cinema atual?
Não é de hoje que vemos a premissa de uma seita bizarra sendo incorporada a filmes de terror. Vale lembrar que os melhores exemplares do gênero são filmes que, de certa forma, dissecam os principais medos da natureza humana, não apenas para assustar o público, mas também para fazê-lo refletir.
Com isso em mente, o horror se tornou um grande espaço para discutir os males que assolam a humanidade, de uma forma a despertar sensações inconscientes e puras, como o medo, o pânico e, como de costume, o susto.
O culto ao demônio Paimon, em Hereditário.
Quando falamos de seitas, o principal mal a ser dissecado aqui é a manipulação e a alienação. Não há nada mais assustador que uma massa acéfala que tem um único propósito em mente, e está disposto a matar e morrer por ela.
Mas o que isso se diferencia, por exemplo, de um grupo de pessoas que luta em prol de uma mesma causa justa, independente de sua natureza?
A grande diferença está na abordagem. Um culto não procura diálogo ou conversa. Em vez disso, joga-se a política do “nós contra eles”, criando uma sensação de isolamento e reconhecimento como se os internos fossem as únicas pessoas justas e conscientes. Os que são “de fora” não são passíveis de conversas ou conversão – eles devem apenas ser aniquilados.
O paganismo de O Homem de Palha.
Nos cinemas, temos um grande exemplar que funciona bem para exemplificar isso: O Homem de Palha, clássico britânico de 1973, sobre um policial que vai até uma ilha remota investigar o desaparecimento de uma menina. Lá, ele acaba se vendo preso às tradições pagãs do local, e acaba sucumbindo para uma seita que deseja sacrificá-lo como oferenda para uma divindade.
Esse é o mais típico caso registrado em filmes de terror que envolvem seitas: a demonização do paganismo. De certa forma, a cultura cristã-ocidental está tão enraizada no pensamento moderno que qualquer coisa que fuja disso deve ser visto como uma afronta e é digna dos piores vilões do horror – contudo, note como isso, por si só, forma uma sátira e uma auto-crítica aos cultos que propagam intolerância religiosa.
Investigando ainda mais as raízes do paganismo, temos uma outra seita que sempre está presente e que, quando revelada, sempre formam os principais vilões do horror: o satanismo, ou culto ao Diabo. Não há figura que mais carregue nas costas a representação do mal e da perdição quanto Lúcifer, e vários exemplares do cinema conseguem trazer isso muito bem.
Um exemplar típico – e outro clássico do cinema – é O Bebê de Rosemary, sobre uma mãe que lentamente se vê no meio de um culto para trazer à Terra o Anticristo.
O Bebê de Rosemary, sobre uma mulher vítima de uma seita satanista.
Curiosamente, vale ressaltar que o diretor do filme, Roman Polanski, passou por maus bocados na época das filmagens – e tudo por conta de uma seita da vida real. O culto de Charles Manson brutalmente matou Sharon Tate, a esposa do diretor na época, como parte de um ritual. Esse caso gerou uma repercussão tão tenebrosa que, em breve, estará presente nas telonas no novo filme de Quentin Tarantino, intitulado Era Uma Vez em Hollywood.
Mas o caso Manson não teve consequências apenas a longo-prazo. O assassinato de Tate, junto com uma onda de cultos surgidos nos Estados Unidos nas décadas de 70 e 80 geraram o que ficou conhecido como “Pânico Satânico”.
Basicamente, esse era o nome dado à sensação de desconfiança dos norte-americanos com todos ao seu redor, sempre supondo que o vizinho estranho da esquina poderia ter um culto secreto, onde oferecia bebês não-batizados ao demônio.
E é claro que o cinema não ia deixar de se aproveitar disso. Vários filmes foram feitos expondo a temática. Um deles – e que recomendo fortemente – é A Casa do Diabo. Apesar de ser lançado em 2009, o longa recria elementos que fazem com que ele pareça um filme da década de 80, e aborda justamente essa temática.
No longa, uma mulher procura um emprego e é contratada para ser babá. No entanto, ao chegar na casa, ela descobre que vai cuidar de uma senhora idosa – e logo se assusta com seus empregadores, duas pessoas muito estranhas. Aos poucos, vamos descobrindo que tudo não passa de uma armadilha para oferecer um sacrifício a uma entidade diabólica.
Dos anos 90 aos 2000, isso acabou perdendo a força dentro do terror – principalmente porque outras convenções, como o found footage e as franquias de torture porn (alô Atividade Paranormal e Jogos Mortais) foram assumindo a liderança nas bilheterias.
Entretanto, nos últimos anos, notamos uma certa ressurgência frequente desses temas. Alguns dos meus exemplares favoritos são Kill List, Last Shift, The Void e o insano Mandy, que conta com uma das melhores atuações de Nicolas Cage.
No ano passado, também fomos obrigados a repensar nossa noção sobre cultos. Para ter alguns exemplares, tivemos O Ritual, O Culto e o excelente Hereditário. Aliás, o diretor deste último, Ari Aster, em breve lançará outro filme com uma temática similar, intitulado Midsommar – cujo trailer você confere a seguir:
Mas aliás, o que torna esses cultos tão presentes na atualidade?
Bem, se reforçarmos que esses filmes sempre possuem uma simbologia própria para desmascarar manipulação e alienação, a resposta vem de uma forma bem simples: a crise política da década.
O terror político de American Horror Story: Cult.
Independente de seu posicionamento político – afinal, este não é um texto acusatório para nenhum dos lados –, estamos vivendo uma grande instabilidade nessa área. De todos os lados (seja direita, esquerda, centro, cima ou baixo), vemos que a alienação tomou conta do povo, de forma que as relações humanas passaram a ser comprometidas em prol de uma mentalidade de colméia, que segue líderes falsos e os defende até a morte.
Um exemplar que sintetiza e solidifica muito bem esse sentimento é a sétima temporada da série American Horror Story, obviamente intitulada Cult. Tudo bem que a série sempre trabalhou com a ideia de cultos bizarros, mas ao adotar uma postura mais satírica e realista, o criador Ryan Murphy conseguiu estabelecer a noção de alienação política como um dos fatores apresentados em cultos e seitas religiosas.
Por mais que não seja minha temporada favorita da série – na verdade, está bem longe disso –, Cult consegue ser, ao mesmo tempo, caricata e realista ao apresentar o mundo político nos Estados Unidos pós-Trump. E não pense que só os republicanos são demonizados aqui, já que há uma trama bem interessante envolvendo uma personagem democrata que se junta à seita por razões que prefiro deixar de fora para evitar os spoilers.
Outra franquia que tentou fazer algo similar – e conseguiu, de certa forma – foi a série Uma Noite de Crime. Aos poucos, o que era apenas um filme bobinho de invasão domiciliar foi tomando uma proporção maior, trazendo comentários afiados a respeito da política como alienadora de uma massa de manobra.
Claro que alguns dos filmes aqui citados – como, por exemplo, Hereditário, fogem da temática política e sequer tomam o assunto por um viés metafórico, mas a grande parte do que temos visto ultimamente mostra essa preocupação em estabelecer os cultistas como alienados (sejam por parte de um político ou de uma entidade ancestral).
The Void, de 2016, consegue trabalhar bem a relação dos cultos Lovecraftianos.
Há muitos anos, H.P. Lovecraft demonstrava isso ao revelar os membros dos cultos cósmicos como pessoas puramente loucas. Atualmente, alguns filmes e séries também estipulam isso – e um exemplo é Bird Box. Independente se você gostou ou não do filme, basta notar como os “cultistas” da entidade amórfica se apresentam: como pessoas ensandecidas.
Ainda não sabemos se essa onda vai continuar por muito tempo – e o que ela tem a nos oferecer além de segredos obscuros e rituais brutais, mas certamente temos aqui uma nova tendência seguida nos filmes de terror – e eu diria que isso vai além deles, já que alguns exemplares de outros gêneros e formatos midiáticos também são voltados para essa exploração sobrenatural. Basta olhar ao redor e notar filmes e séries como O Mundo Sombrio de Sabrina, Martha Marcy May Marlene, O Mestre e até mesmo Unbreakable Kimmy Schmidt.
De um jeito ou de outro, podemos tirar um tempo para pensar sobre o que isso significa e como o horror molda nossos sentidos a respeito do mundo lá fora. Com sorte, o clima de instabilidade um dia vai passar – e aí, esperamos para ver o que o gênero vai acusar como o próximo grande mal da humanidade.
Abaixo, relembre alguns ótimos filmes sobre cultos sinistros:
De cultos satânicos a adoradores de entidades cósmicas!
Dentro do horror e do suspense, poucas coisas são mais assustadoras que cultos secretos e seitas bizarras. Grupos de pessoas alienadas com um único propósito sinistro, que podem realizar feitos macabros para manter o sigilo de sua comunidade ou então para que possam concluir as tarefas designadas por seus superiores.
Com isso em mente - e a chegada do mais recente suspense Apóstolo à Netflix - reunimos 10 filmes sobre seitas e cultos sinistros, para você que morre de medo de uma multidão conspirando em favor de alguma causa sádica e assustadora - sejam adoradores de Satã ou de criaturas ainda piores...
Saiba que alguns itens desta lista vão conter spoilers e outras informações importantes a respeito do plot dos filmes citados.
Créditos: Divulgação
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20 anos. Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Cineasta em desespero. Fã de quadrinhos e cultura pop. Para sempre revoltado com o Oscar roubado da Fernanda Montenegro. || @gus_fiaux